Há muito que em mim surgia a vontade de uma experiência no voluntariado, nomeadamente com crianças. Talvez ainda não o tivesse feito, por falta de tempo, oportunidade, companhia, enfim… as inúmeras desculpas que arranjamos quando não nos empenhamos a sério numa causa.
A oportunidade aconteceu sem se anunciar, por força das coincidências e por uma situação do acaso e porque nada acontece por acaso, dei comigo no Domingo de manhã a entrar na Pediatria do Hospital de São João do Porto, acompanhado da Madalena, do André, da Joana e da Paula, a mergulhar em momentos nunca antes saboreados.
Começamos pelo Lino (nome fictício), um miúdo que só de ouvir os primeiros acordes do André, ainda quando este, no hall de entrada, dedilhava uns acordes de Jack Johnson soltando-se de algum nervosismo que os seu dedos arriscassem alojar, já pedia a todos que por ele passassem para nos dizer que estava à nossa espera.
A cumplicidade apaixonante com que a Madalena namoricava o Lino enquanto este carinhosamente lhe pedia um presente para dar à irmã e a emoção com que nos acompanhava a cantar os versos do refrão da música “Estou na lua” dos Lunáticos foi logo um anúncio da amálgama de sentimentos que me aguardava.
Se por um lado era devastado pela tristeza de saber que uma criança com aquela tenra idade estava a ser sujeita ao mais cruel dos tratamentos, por outro a apreensão com que ele, mesmo ali internado, se preocupava com a irmã, assegurando-se de que havia um presente para ela, mostrava-me em primeira mão o que é amar alguém incondicionalmente. Tudo era secundário para ele, a irmã naquele momento, que felizmente estava bem de saúde e em casa, era a sua prioridade. Assistindo de camarote a esta enorme prova de amor, que arrojou para a inutilidade a flor que se dá no dia dos namorados ou o presente que se dá no dia de anos, pensei:
Amor é isto!
É lembrar-se da irmã, esquecendo-se que era por ele que ali estávamos.
Os acordes mágicos que saiam da viola do André, por vezes aos tropeções, eram dissimulados pela enorme determinação com que ele se empenhava em fazer daquele dia, não mais um dia, mas sim o dia. O dia mais feliz daqueles dias menos felizes.
As nossas vozes, sem arte para a música mas repletas de vontade, acompanhavam a magia do André e serviam de banda sonora aos sorrisos que conseguíamos resgatar aos rostos fechados que íamos encontrando. Era essa a nossa missão, redesenhar os semblantes, e, por consequência o nosso prémio.
Perceber que o sorriso fechado com que uma menina, de nome Iara (nome fictício), nos recebeu e que, mesmo sem poder falar, no fim com um dos mais rasgados sorrisos da sala acompanhava com uma alegria contagiante a música que o André difundia e que todos nós, voluntários, pais, crianças, auxiliares e mais quem lá estivesse cantávamos, é de uma gratidão inexplicável.
Ler a felicidade que os olhos daquela mãe, que cantarolava connosco, respiravam ao olhar o entusiasmo da sua menina a viver o momento é das coisas mais gratificantes que se pode ter.
Descobrir que mesmo com o peso da tristeza que se sente num quarto de internamento, existe quem cante e encante ao nível de qualquer músico famoso, como foi o caso da Isilda (nome fictício), uma miúda de 16 anos que nos primeiros versos do “Paixão” do Rui Veloso, obrigou a que eu e a Joana nos calássemos para não estragar a música e dar aos restantes o proveito de se deliciarem com cada palavra que ela, de olhos fechados e cheia de paixão, nos oferecia.
No final daquele mini concerto, à capela, com que ela nos brindou, e que todos nós assistimos de plateia, ouvir da sua boca dizer que se antes estava triste por ter vindo para aquele hospital, agora já nem sequer colocava a hipótese de sair dali, é de nos encher de orgulho e saborear a expressão “missão cumprida”.
Desfrutar, durante todo o percurso, de uma meiguice envergonhada, com que uma menina de origem africana, e de uma beleza indescritível é extraordinariamente delicioso. Com aqueles olhos de gata que nos miravam com o olhar mais doce que eu já alguma vez vi e com uns lábios carnudos que tão bem se desenhavam no rosto, quase que me atrevia a dizer que estava perante um clone em ponto pequeno e com uma cor de pele mais escura da Angelina Jolie.
No final e a olhar aqueles doces olhos, que timidamente pareciam querer nos dizer, para a levarmos connosco e a ter uma projecção mental de tudo o que foi vivido, percebi o quanto foi acertado o nome da associação “Cor é vida”. Foi cor o que viemos dar àquele espaço.
Naquele dia, trouxemos tintas de bondade e partilha, e com pinceladas de amizade e amor colorimos aquela tela cinzenta, de música, sorrisos, alegria e felicidade e em algumas partes da pintura até se notou alguns toques mágicos de omissão da razão pela qual ali se encontravam. Mais que sentir o quanto gratificante foi fazer parte desta experiência foi a felicidade que senti em fazer parte da equipa que coloriu este belo quadro.
Obrigado, Madalena, André, Joana e Paula.
Obrigado, Cor é vida!






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