"... num passo incerto e hesitante, consumido por uma incompreensível timidez, caminha na direcção de Iara de uma forma lenta e subtil. Estranhamente sente-se atrapalhado com o facto de possuir mãos, parecia-lhe que era uma parte nova no seu corpo, que acabara de nascer. Desesperado e sem saber onde as arrumar, coloca-as, ora dentro dos bolsos, ora penduradas e seguras pelos polegares nos bolsos das calças de ganga, intencionalmente gastas e rasgadas dando-lhe um ar mais jovial.
Ao ver Pedro, guardou calmamente o telemóvel na mala - dando por terminado a intenção de lhe telefonar - acordou suavemente o casaco, antes de o vestir e acomoda-lo com uma delicada precisão no seu aprumado corpo e, por fim, colocando a mala a tiracolo, desloca-se numa calma velocidade, uma velocidade diferente, como se todos fugissem da morte e ela caminhasse para a vida.
Pedro sorrira ao reconhecer aquele ligeiro descair de cabeça para o lado direito, auxiliado de um sorridente olhar que atiravam para segundo plano qualquer outra expressão. Os seus lábios, feitos de um morango fresco, eram um convite ao beijo recordado.
Ele avançava para ela, de carteira e telemóvel numa mão e a outra solta, desprezando toda a atrapalhação e desconcerto do momento anterior.
Era indescritível aquele momento único, já antes por ambos, sonhado em segredo.
Faziam-no vagarosamente, demoravam-se nos passos, estudavam-se mutuamente, relembravam os gestos, as expressões, reviviam os anos e no encurtar da distância percorrida, o odor das peles, antes combinada, transporta-os para o gosto do sabor das noites de amor. As palavras foram substituídas por uma simples troca de sorrisos, olhos cintilantes, fixados uns no outro, cientes de uma certeza. Não era um sonho.
- Olá! "







